CAPITALISMO DE CONEXÃO

Bolsa de Valores de Nova York

Com a pandêmia do COVID-19 fechando as portas de milhares de pequenas e médias empresas e com isso pingando a entrada de suas receitas com suas vendas diretas ao consumidor, o governo federal foi obrigado a entrar no campo econômico privado para ajudar as empresas mais afetadas nesta areia movediça. Logicamente que esta intervenção federal vai contra a ideologia de Estado mínimo na cultura norte americana. É exatamente nesta hora onde observamos a importância do Estado na vida do cidadão. Estado mínimo é um bom tema para o bate papo filosófico no bar depois do expediente de trabalho.

Segundo reportagem do períodico financeiro The Wall Street Journal, o governo federal desembolsou a bagatela de US$521 bilhões( voce não leu errado) para estancar a hemorragia econômica afligindo o país como um todo. Entretanto, o que milhões de pessoas desconhecem nos EUA é que esta ajuda não ficou restrita somente a estas empresas.

As companhias bem sucedidas de advocacia, de gestão de fortunas e aqueles negócios conectados politicamente com o presidente Donald Trump receberam a fatia maior que visava ajudar ao pequeno e médio negócio a enfrentar o atual o tsunami econômico.

Segundo a reportagem, a casa Branca divulgou o nome das 600 mil empresas que tinham o direito de receber o auxílio conhecido como Programa de Proteção de Salário (Paycheck Protection Program em inglès).

Uma destas empresas favorecidas pertence a secretária de Educação Betsy Devos. Estas empresas receberam a maior porcentagem de empréstimos, ou seja, acima de US$150 mil. Detalhe importante: Este número representa somente 15% dos mais de 4 milhoes de empresas que participaram deste programa federal.

O touro como símbolo máximo do capitalismo dos EUA./Robert Nickelsberg/getty image

Todos os mutuários podem ter seus empréstimos perdoados contanto que gastem pelo menos 60% do dinheiro na folha de pagamento e cumpram outros requerimentos. Muitas destas companhias mais conhecidas com fundações sólidas financeiramente falando tomaram emprestado junto ao governo federal entre US$5 e US$10 milhões, o máximo permitido dentro das regras do programa.

É interessante mencionar ainda que várias empresas receberam vários empréstimos através de suas subdisiárias. Os requerimentos para as maiores empresas foram aprovados rapidamente, ou seja, 92% destes pedidos quando a quantidade requisitada era entre US$5 e US$10 milhões, se comparados com apenas 59% de aprovação rápida de todos os empréstimos feitos no geral.

Outro grupo influente beneficiado com este programa foi o dos políticos com conexão com o presidente. Foi o caso de Kevin Hern, representante republicano no Congresso pelo estado de Oklahoma e dono de uma franquia de “Fast-Food”. Ele recebeu do generoso governo federal entre US$1 e US$2 mihões. Organizações religiosas também foram agraciadas(santo também precisa de ajuda). Estas organizações receberam um total de US$7.3 bilhões. Neste grupo seleto está incluída uma sinagoga em Nova York frequentada pela elite judáica da cidade.

“No geral há enormes buracos e inconsistências nas informações”, disse John Arensmeyer, presidente executivo da Maioria dos Pequenos Negócios (Small Business Majority em inglês), um grupo de defesa, na sua declaração. Ele afirmou ainda que muitos pequenos negócios ao que parece receberam menos do total de emprétimo que solicitaram, inluindo aí mais de 1.200 companhias que receberam menos de US$100.

Fica claro que os grandes beneficiados com o empréstimo federal no laudado capitalismo norte-americano foram as grandes empresas e amigos com conexões diretas com o atual presidente.

Este é o capitalismo que sempre reclama da mão do Estado. O Estado só não é demais quando a ajuda é para benefício próprio./WSJ

JOHN QUINCY ADAMS, SHAKESPEARE, E O DEBATE RACIAL NA AMÉRICA

Sexto presidente dos EUA John Quincy Adams

Com o grande debate sobre raça, iniquidade e abismo social acontecendo a nível nacional na América após a morte brutal do cidadão George Floyd por um policial na cidade de Minneapolis no último dia 25 de Maio, uma enorme luz foi colocada mais uma vez no tema cidadania, negritude e no papel dos pais fundadores com relação a raça nos Estados Unidos.

Os pais fundadores da América são altamente reverenciados. Com toda certeza esse enorme encômio é devido a Carta Magna, mas a referência é feita principalmente no que diz respeito ao famoso “Bill of Rights” (Leis dos Direitos), os dez primeiros artigos da Constituição. A Constituição foi outorgada com a escravidão correndo paralelamente com idéias liberais de liberdade e igualdade.

O que é desconhecido por milhões no país é que pelo menos 12 presidentes durante a formação da América eram escravocratas. Destes pelo menos oito eram donos de escravos durante o periodo que ficaram a frente do executivo.

Recentemente o periódico financeiro mais influente nos Estados Unidos, o “Wall Street Journal”, publicou no seu eclético caderno Cutural de final de semana chamado “Review”, um explêndido artigo assinado por James Shapiro sobre John Quincy Adams, o sexto presidente do país. Ele é professor de história da universidade Columbia de Nova York.

No artigo o autor desbanca um pouco a auréola do abolicionista. O presidente foi magistralmente interpretado pelo ator britânico Anthony Hopkins no filme Amistad de 1997.

O filme conta a história de um grupo de africanos capiturados em alto mar e levados para os EUA. John Quincy Adams na condição de ex presidente e um dos representantes na Câmara do Deputados litigou o caso dos africanos perante a Corte Suprema.

Otelo e Desdemona personagens de Otelo peça do dramaturgo Shakespeare

Logicamente que esta visão mais liberal realacionada a escravidão trouxe muitas dores de cabeça a John Quincy Adams além de muitas ameaças de morte. Uma destas dores de cabeça veio diretamente de um oponente no Congresso, o senhor Henry Wise, futuro general Confederado. O senhor Wise descreveu Adams “como o mais astuto, o mais esperto e um arqui-inimigo dos escravocratas no Sul”.

O destaque para o artigo ficou para a profunda repulsa que John Quincy Adams tinha relacionada a miscigenação. Apesar de ser considerado um entusiasmado abolicionista, bem educado e um liberal da Nova Inglaterra, ele era totalmente a favor da separação das raças. Ele não podia sequer pensar na idéia de um homem negro dormindo com uma mulher branca. Para John Quincy Adams os escravos deveriam sim ser livres, mas só não deveriam ser livres para dividir a cama com alguém de uma raça diferente. Neste caso logicamente nem pensar com uma mulher branca e “pura”.

Na ânsia em manter a pureza e imagem imaculada do ex presidente estes detalhes não são investigados profundamente pelos biógrafos. O sexto presidente tornou suas idéias públicas relacionadas a miscigenação num jantar em Boston com a atriz britânica Fanny Kemble que estava viajando pelo país com a apresentação da peça Otelo.

Profundo admirador do famoso dramaturgo britânico Shakespeare, John Adams disse a atriz no jantar que a peça era repugnante e que Desdemona mereceu sua morte porque se apaixonou por um “nigger”, um epiteto racista usado em relação a uma pessoa negra nos EUA.

É fato que John Quincy Adams contribuiu extraordináriamente para a formação do país. Entretanto, sua visão com relação a raça negra não pode ser mitigada ou minimizada somente para mantê-lo num pedestal imaculado. Suas idéias racistas que ainda circulam na mente de milhões no país devem fazer parte do registro histórico tanto quanto sua luta anti escravidão. A morte de George Floyd reacendeu um debate que jamais saiu de cena. Ele só estava descansando momentaneamente na coxia.