RACISMO NO CENTRAL PARK DE NOVA YORK.

AMY COOPER AT CENTRAL PARK

Amy Cooper no Central Park com seu cocker spaniel

Você sabe como chamam um negro com um diploma de faculdade nos Estados Unidos? Um criolo com um diploma. – Malcolm X

 

Criolo não foi bem o que o grande ativista falou. Na verdade o ativista pelos direitos humanos usou o termo “nigger”, uma palavra altamente ofensiva dirigida derrogatoriamente para a população negra.

Esta semana no famoso Central Park de Nova York o cidadão Christian Cooper estava cuidando de sua vida tranquilamente enquanto observava a natureza e os passarinhos. Ele é um ávido observador de pássaros (bird watcher em inglês), inclusive fazendo parte de uma organização na cidade. Enquanto estava parado ele observou que uma mulher estava acompanhada pelo seu cachorro sem a coleira, o que é proibido e factivél de uma multa na cidade. Ao pedir que dona colocasse a colera no seu “cocker spaniel”, o que ela não o fez, o senhor Cooper ofereceu um biscoitinho ao cachorro que estava destruindo o habitat natural dos passarinhos.

Foi neste instante que a situação saiu fora do controle. O senhor Cooper começou a filmá-la. Amy Cooper(o mesmo sobrenome mas sem relação alguma) pediu então para que ele parasse de filmar. Como ele se recusou, ela então passou a ameaçá-lo dizendo que iria chamar a policia. “Vou chamá-los”, ela disse. “há um afroamericano ameaçando a minha vida e a do  meu cachorro”, ela disse ao despachante da polícia. Amy Cooper disse depois em entrevistas que não sabia o que fazer nesta situação e que se sentiu ameaçada porque não sabia que tipo de biscoitinho o senhor Cooper estava dando ao seu cachorro.

Christian Cooper at Central Park

Christian Cooper com seu binóculos no Central Park

O vídeo que dura menos de 4 minutos deste encontro, logicamente viralizou na internet sendo compartilhado mais de 20 milhões de vezes. Ao ser entrevistada a noite na rede de televisao NBC, a senhora Amy Cooper pediu desculpas por sua atitude racista. “Quando eu penso na polícia… Eu penso neles como uma agência de  proteção e infelizmente isto fez com que eu percebesse que há muita gente neste país que.. que não tem este requinte.” Este pedido de desculpas não foi o suficiente para o seu empregador. Amy Cooper nativa de Chicago foi despedida da famosa Seguradora Franklin Templeton por causa de sua atitude altamente racista. Em nota a empresa disse que repudia qualquer atitude racista dos seus empregados.

O prefeito da cidade, o senhor Bill de Blasio, postou na sua conta do Twitter. “Ela chamou a polícia porque ele era um homem negro. Mas quem estava descumprindo a lei era ela. ela decidiu que ele era um criminoso e nós sabemos porque.” Para o prefeito, só o fato dela ter chamado a polícia porque estava em frente a uma pessoa negra presumindo-se ameaçada constitui um ato racista.

A policia compareceu no local após a chamada de Amy Cooper. Tanto ela quanto o senhor Christian já não estavam mais no local.

Mais de 50 anos atrás Malcolm X disse o que a América branca pensava das pessoas negras com diplomas. Este incidente recentemente no famoso parque da cidade é mais uma prova que muita gente  na América ainda vê as pessoas negras com um olho enviesado. O diploma da prestigiosa Universidade Harvard não salvou o senhor Cooper deste embroglio.

 

 

CLORA BRYANT (1927 – 2019)

Clora Bryant

Clora Bryant com seu trumpete

Clora Bryant foi uma daquelas pessoas agraciadas com um talento natural para a música. Ela nasceu com o dom natural para tocar o trumpete. Poderíamos sem dúvida alguma associá-la aquele jogador de futebol de várzea altamente talentoso, mas que por azar nunca foi descoberto para jogar num time profissional, mas acabou tornando-se uma lenda nos campos da várzea.

Considerada uma das grandes damas do Jazz na costa Oeste dos Estados Unidos, mas por causa do seu gènero Clora não atingiu o estrelato que muitos dos seus  pares masculinos conseguiram durante sua época como artista profissional. Auto declarada trumpestista, ela surgiu com o movimento de Jazz Bep Bop apresentado ao mundo pelo saxofonista Charlie Parker e o trumpestista Dizzy Gillespie entre outros no início dos anos de 1950.

Frequentemente encontrando discriminações sexistas, e sem o apoio das grandes gravadoras da época ou de um agente, Clora Bryant só apareceu como uma“bandleader” na sua meia idade. Segundo Dizzy Gillespie, a trumpetista “tinha uma afeição carinhosa pelo trumpete. Este carinho não estava ligado somente as notas musicais.”

Clora Bryant creditou seu pequeno sucesso ao apoio incondicional do seu pai, um trabalhador braçal que criou 3 filhos quando sua esposa faleceu em 1930 e Clora tinha apenas 3 aninhos. “Ninguém nunca me disse, ‘voce nao pode tocar trumpete, voce é uma menina’,” ela disse numa entrevista em 2007 para revista Jazztimes. “Meu pai me disse, ‘vai ser um desafio, mas se voce irá enfrentá-lo terá todo meu apoio até o fim’, e ele me apoiou”.

Clora Bryant na California em 1954

Clora Bryant no Clube de Jazz Hermosa na California em 1954. Getty/image

A princípio ela começou com o piano, mas passou para o trumpete depois que sua escola de ensino médio criou uma banda. Mostrando uma disposição natural para o instrumento musical, ela sempre despertava bem cedo para tomar aulas particulares antes de ir para a escola.

Clora Bryant decidiu ir estudar na Universidade A&M, uma histórica escola negra fora da cidade de Houston, no estado do Texas porque o estabelecimento tinha uma banda de Jazz composta somente por mulheres.

Em 1945 mudou-se juntamente com a família para Los Angeles. Seu pai saiu fugido da cidade do Texas acusado por um grupo de pessoas brancas de ter roubado tintas de uma casa de ferragens. Depois de ouvir o trumpetista Howard Mcghee num clube de Jazz em Los Angeles ela ficou apaixonada pelo ritmo sincopado do Bep Bop.  Clora ainda era menor de idade,  então ficou do lado de fora simplesmente transformada com o som que saia de dentro do clube.

Em 1946 ela entrou para a banda “International Sweethearts of Rhythm” a principal banda feminina do Jazz no país. Logo depois incorporou-se a banda “Queens of Rhythm”. Quando deixou esta banda Clora Bryant aprendeu a tocar o baixo. Animadora da platéia, ela as vezes tocava o trumpete com uma mão enquanto tocava a bateria com a outra.

Durante boa parte dos anos de 1950 ela regularmente estava a frente das famosas “Jazz Sessions” em Los Angeles. Ela tocava também na banda da casa de Jazz Alaban onde era vocal de apoio (back vocal em inglês) para artistas como a cantora Billie Holiday e a artista Josephine Baker.

Durante um breve periodo viveu em Nova York, mas logo retornou para Los Angeles onde permaneceu o resto da sua vida tornando-se uma jazzista conhecida e mentora para novos talentos. Clora Bryant continuou bastante ativa até os anos de 1990 quando parou de se apresentar por problemas relacionados a sua saúde. Em 2002 foi agraciada com o prêmio “Lifetime Achievement” reconhecimento  pelo seu imenso trabalho. O premio foi entregue pelo renomado “Kennedy Center”  de Washington no festival de mulheres do Jazz que aconteceu no teatro Mary Lou William. Ela cantou algumas de suas composições ao lado dos jovens músicos.

No final do documentário “Trumpetistically, Clora Bryant”, dirigido por Zeinabu Davis, ela reconhece a frustação de ter sido deixada para tras enquanto seus amigos homens subiram para o estrelato musical. Entretanto, ela ao mesmo tempo expressou um intrépido orgulho por sua distinta carreira mesmo assim.

“Estou sentada aqui quebrada como os Dez Mandamentos, mas ainda sou rica”, ela disse. “Com amor e amizade  e música. E eu sou rica em vida”.

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