ESTANTE LITERÁRIA – CONGRESSO SANGRENTO DOS EUA.

Campo de batalha dentro do Congresso dos EUA.

Muita gente na América contemporânea acredita que o atual Congresso no país é totalmente disfuncional. São 535 legisladores que praticamente não falam a mesma língua política e ainda por cima defendem interesses econômicos bastantes distintos.

Uma pequena viagem ao passado mostra que o atual Congresso não é assim tão disfuncional como se pensa se compararmos a uma época quando os senadores e representantes da Câmara frequentemente entravam em lutas corporais, e em muitas vezes duelavam armados com suas pistolas.

Há um mito na Democracia norte-americana de que tudo sempre é resolvido através do debate político ou através das cortes. Nada poderia estar mais longe da realidade histórica do tio Sam. A guerra civil é o maior exemplo de diferenças políticas que foram resolvidas numa sangrenta batalha.

The Field Of Blood: Violence In Congress And The Road To Civil War (Campo De Sangue: Violência No Congresso E O Caminho Para A Guerra Civil) escrito esplendidamente pela historiadora e professora Joanne B. Freeman da universidade Yale no estado de Connecticut mostra o sangue derramado nas fileiras do Congresso dos EUA.

Num livro meticulosamente pesquisado, a historiadora mostra as brigas, facadas, cacetadas e ameaças de mortes que ocorreram trinta anos antes da Guerra Civil, ou seja, o livro mostra a pressão constante dos bastidores políticos até a inevitável batalha de 1860.

Joanne B. Freemam baseia seu livro nos onze volumes do observador político Benjamin Brown French que manteve um diário entre os anos de 1828 e 1870, ou seja, até 5 anos após o final da Guerra Civil. A disputa moral da escravidão estava na discussão diária dos legisladores tanto do Norte como do Sul.

Na época Benjamin Brown era um advogado e jornalista. Ele acabou envolvendo-se na política onde trabalhou como escriturário em Washington durante 14 anos e depois resolveu ficar na cidade trabalhando meio periodo como escriturário, lobista e comissário na área da construção civil. Considerado primero um democrata, depois passou a defender a abolição da escravidão no país.

Segundo seu diário, “houve entre 1830 e 1860 mais de 70 incidentes violentos entre os representantes das duas câmaras do Congresso nas suas cercânias e também em áreas designadas para duelos”. Lógicamente muitos destes incidentes já foram completamente esquecidos.

Vários representantes carregavam suas pistolas prontas para o disparo. Um incidente envolvendo Edward Stanly representante da Carolina do Norte e Henry Wise representante da Virginia levou a uma enorme confusão generalizada onde quase todos os membros da casa dos representantes brigaram entre si.

Joanne B. Freeman em circuito literário promovendo seu livro

Muitas das provocações eram feitas deliberadamente pela turma antiescravagista do Norte provocando os representantes do Sul pró escravidão. Estes últimos seguiam um certo código de honra. De acordo com este código, qualquer pequeno insulto era motivo para brigar, ou como em alguns casos, razão para um duelo de morte.

Henry S. Foote senador por Mississippi e ardente defensor da escravidão duelou quatro vezes e foi ferido em três deles. O mais famoso incidente dentro do Congresso envolveu o senador pelo estado de Massachusetts, o senhor Charles Sumner e o representante da Carolina do Sul, o senhor Preston Brooks.

Depois do seu discurso contra a escravidão “O Crime contra Kansas City”, Sumner sentou-se no seu lugar de costume sózinho no senado quando foi confrontado por Brooks que esbravejava bastante e se dizia ultrajado pela ofensa contra seu estado, sentindo-se também ofendido por um parente seu. Brooks então passou a atacar Sumner com seu bastão desferindo duros golpes contra o senador que nada podia fazer porque estava preso a sua cadeira. Brooks só parou seus golpes quando seu bastão rompeu-se deixando Sumner todo ensanguentado e caido no chão numa poça de sangue.

Eventualmente o senador Sumner se recuperou e foi aclamado como um herói pela bancada representando o Norte e uma lembrança das táticas usadas pelos sulistas para manter a escravidão intacta no país. Enquanto isso no Sul, Brooks foi tratado como um verdadeiro herói nacional onde editores, grupo de pessoas e estudantes o aclamavam. Ele Recebeu vários presentes e bastões novos com as seguintes insígnias: “Bom Trabaho”, “Bata Nele Novamente” e por último “Use Argumentos de Pancada”. Logicamente o representante foi reeleito para a casa dos Representantes.

Os embates dentro do Congresso tornaram-se tão regulares e lendários que as pessoas passaram a frequentar a casa legislativa com a esperança de ver alguma briga ou algum duelo. Podemos comparar hoje em dia com aqueles jogos de Hockey no gelo onde os fãs ficam esperando ver uma briga entre jogadores e sangue ou os fãs dos lutadores da MMA.

É claro que toda esta tensão estava sendo criada por causa do tema da escravidão. Tema este que jamais entrou em pauta na Constituição. Enquanto os sulistas eram considerados os agressores, os nortistas eram vistos como uns mariquinhas engomadinhos. Entretanto, por volta de 1850 os nortistas criaram coragem e passaram a defender os princípios da Constituiçao que dizia todos os homens nasceram iguais.

Quando finalmente os soldados da União colocaram de joelhos os soldados Confederados em 1865, aproximadamente 750 mil americanos perderam suas vidas no conflito que preservou a União e ao mesmo tempo pôs fim a escravidão.

Joanne B. Freem não faz nenhuma comparação com a atual composição do Congresso. Nem é preciso, num Congresso que mal consegue se comunicar entre si, e onde existe um fosso cultural com poucas chances de ser cruzado. Tudo que está faltando neste momento de pandemia e demontrações contra violência policial e racismo é um honesto Abraham Lincoln para salvar a todos. Sem o derrame de sangue naturalmente!/NYT

The Field Of Blood – Violence In Congress And The Road To Civil War

Joanne B. Freedman

Editora – Farrar, Strauss & Giroux

450 Páginas – $28.

SACUDINDO O MUNDO ESPORTIVO NA AMÉRICA

Jogadores da NBA protestaram contra o racismo e a violência policial na América.

A força econômica e cultural do campeonado de basqute norte-americano, conhecido mundialmente como NBA (National Basketball Association em inglês), é irrefutável. Sua popularidade é tanta que durante a pré temporada e depois na temporada que normalmente começa em Novembro e vai até o final de Junho vários jogos acontecem em outros países. É uma intenção clara da entidade esportiva em abocanhar outros mercados ao redor do planeta.

Desde a brutal morte de George Floyd em Maio deste deste ano nas mãos da polícia de Miniápolis, uma convulsão social tomou conta das ruas na América. Atletas profissionais, principalmente aqueles que pertencem as grandes ligas dos esportes não ficaram imunes as manifestações contra o racismo e a violência policial que atinge desproporcionalmente jovens negros nas áreas urbanas mais pobres na América.

Recentemente mais um ato desta violência envolvendo a polícia e um cidadao negro aconteceu no país. Desta vez o incidente aconteceu na pequena cidade de Kenosha no estado de Wisconsin envolvendo Jacob Blake. Segundo informações da mídia local, Jacob Blake foi atingido por 4 balas disparadas por um policial enquanto ele estava dentro do seu carro junto com seus filhos. Algumas versões dizem que Jacob estava tentando pegar uma faca dentro do seu porta-malas.

A iniciativa espontânea de George Hill, um jogador de basquete pouco conhecido do Milwaukee Bucks resultou na semana passada numa completa parada durante a fase final dos jogos da NBA. Esta paralisação acabou envolvendo vários atletas. Entre eles estava a estrela máxima da liga, o jogador Lebron James do Los Angeles Lakers. Na sua conta no Twitter que é seguida por milhões ao redor do planeta ele escreveu “que mudanças devem acontecer acompanhadas de ações e precisa acontecer AGORA!”

Jogadores da NBA protestando contra o racismo na América

Segundo um longo artigo publicado no periódico The New York Times, um dos representantes da liga disse que talvez os jogadores voltam a jogar no final de semana. Porém, ele nao estava garantindo 100% de volta as quadras (Os jogadores voltaram a jogar no último final de semana de Agosto).

A atitude dos jogadores de basquete teve um efeito multiplicador. As ligas de futebol, hockey e beisebol também pararam. Os treinamentos da pré-temporada do futebol americano também foram intenrrompidos. Tudo isto com o objetivo de fazer a America conversar seriamente sobre o racismo e a violência policial.

Mais uma vez o presidente trocou farpas com os jogadores da NBA por causa da posição destes em relação ao racismo no país. Donald Trump acredita que os jogadores profissionais negros por causa de suas visibilidades e altos salários estão isentos de sofrer qualquer tipo de racismo. Segundo ele as pessoas estão um pouco cansadas da NBA.

Esta parada chamou a atenção de várias pessoas. Uma delas foi a do ex presidente Barack Obama que tem relações pessoais com vários jogadores da liga. Ele disse estar feliz porque os jogadores estão lutando por aquilo que eles acreditam.

Juntamente com os jogadores masculinos, as jogadoras femininas da liga WNBA (Women NAtional Basketball Association em inglês) tem tido um papel bastante ativo durante os manifestos contra o racismo. Renee Montgomery da equipe do Atlanta Dreams desistiu da temporada deste ano para focar mais no seu trabalho relacionado a luta para uma melhor justiça social.

No começo de Agosto os donos dos times de basquete, muitos deles bilionários, disseram que fariam uma doação de 30 milhões de dolares por um periodo de 30 anos dedicado ao empoderamento econômico dentro da comunidade afroamericana.

Durante a parada pelo menos 7 jogos foram adiados. Os times de beisebol Mets (Nova York) e Marlins (Flórida) entraram em campo na hora do jogo e ficaram em silêncio por 42 segundo. Uma alusão clara ao número da camisa do jogador Jackie Robinson, o primeiro jogador negro a jogar pela liga profissional no país. Logo após este ato os jogadores voltaram aos seus vestiários deixando no campo uma camisa com os dizeres: Black Lives Matter.

A morte de George Floyd juntamente com as manifestações anti racismo e a epidêmia do coronavirus estão testando a resiliência da democracia na América.