DISTÚRBIOS RACIAIS NA AMÉRICA.

Acredito que um homem é tão bom como qualquer outro contanto que ele seja honesto e descente e não um criolo(nigger em inglês) ou um chinês(Chinaman en inglês). Meu tio Will diz que o Senhor fez o homem branco do pó, o criolo do barro, e então jogou para o alto; o que sobrou e caiu é um Chinês. – Harry S. Truman: Presidente dos EUA entre 1945 e 1953.

Minneapolis riots
Distúrbio racial em Minneápolis apos a morte de George Floyd em 2020. Foto: AFP

Em Agosto de 1991 quando estava há um ano morando  nos Estados Unidos tive a minha primeira lição sobre o significado de distúrbios raciais e seu impacto dentro da história dos EUA. Nestes 30 anos de América a história segue se repetindo sem qualquer solução em vista.

No meio do verão daquele meu primeiro ano em Nova York o menino negro Gavin Cato morador em Crown Heights no Brooklyn foi acidentalmente morto por um carro que estava acompanhando um comboio de carro homenageando um importante rabino no bairro. Este acidente tornou-se o epicentro de 3 dias de um violento disturbio racial envolvendo a comunidade judaica e negra de Nova York.

Crown Heights riots
Distúrbio racial no Brooklyn in 1991. Foto:AP

Menos de um ano depois foi a vez da cidade de Los Angeles ficar envolvida num violento tumulto racial que durou aproximadamente dois meses. A razão do distúrbio foi a revelação de um video mostrando 4 policiais brancos com seus bastões batendo violentamente no motorista negro Rodney King enquanto ele estava caido no asfalto.

Los Angeles riots
Disturbios raciais em Los Angeles em 1992. Foto: KYCC

O julgamento dos 4 policiais que deveria ter acontecido na cidade foi transferido para o condado de Simi Valley onde um juri composto por nove pessoas brancas, uma pessoa asiática e uma pessoa latina absolveram os policiais. O que se seguiu foi uma série de destruições de propriedades, 63 pessoas mortas e mais de 12 mil pessoas presas. O distúrbio deixou no seu rastro um prejuízo para a cidade de mais de US$1 bilhão.

Em 2001 a cidade da vez foi Cincinnati no estado de Ohio. Timothy Thomas de apenas 19 anos foi morto com um tiro a queima roupa no peito. Por causa de suas  várias contravenções e multas, ele era contantemente hostilizado pela policia local.

Na manhã do dia  7 de Abril a polícia tentou prender o jovem Thomas por causa de suas contravenções. Durante mais de 10 minutos os policiais o perseguiram na rua até a chegada do policial Stephen Roach. Depois de ser encuralado num beco escuro seu encontro com o policial foi fatal. Sentindo-se ameaçado Stephen Roach sacou sua arma e atirou no peito do jovem. Investigações posteriores determinaram que Timothy Thomas não estava tentando alcançar uma arma, mas sim puxar sua calça que estava caindo.

O que começou com um protesto pacífico entre mais ou menos 30 pessoas espalhou-se rapidamente pelas ruas com milhares de manifestantes derrubando latas de lixo e quebrando caixas contendo jornais. Vários estabelecimentos comerciais foram vandalizados tendo suas portas arrancadas e suas janelas quebradas. A polícia respondeu com a cavalaria atirando gás pimenta e prendendo mais de 80 pessoas. Após uma semana de protestos e disturbios o prejuizo acumulado ficou em quase US$4 milhões.

POLICE SHOOTING
Distúrbios raciais em Cincinnati após a morte do adolescente Timothy Thomas em 2001. Foto: Tom Uhlman/AP

Em 2009 foi a vez de Oscar Grant III de apenas 22 anos morrer na cidade de Oakland no estado da California. Aquilo que era para ser uma celebração acabou em uma tragédia quando o jovem foi morto pelo policial branco de trânsito Johannes Mehserle. O policial estava no local respondendo a um chamado para separar uma briga dentro de um vagão lotado num trem metropolitano que estava voltando de São Francisco depois dos fogos do 1º do ano.

Foram vários dias de protestos onde os manifestantes estilhaçaram as janelas da delegacia, atiraram garrafas nos policiais e retiraram a bandeira da delegacia do mastro colocando-a novamente de ponta cabeça. Ao menos 10 manifestantes foram presos.

Em 2014 foi a vez do adolescente Michael Brown de apenas 18 anos morrer na cidade de Ferguson no estado do Missouri. Ele foi morto pelo policial branco Darren Wilson numa disputa com o adolescente pela sua arma. Michael Brown estava ao lado do seu amigo Dorian Johnson. Segundo o testemunho do policial, Michael Brown tentou pegar seu revolver na disputa. A arma acabou disparando matando o adolescente.

Durante vários dias de protestos os manifestantes entraram em choque com a polícia que respondeu com gás pimenta. Vários estabelecimentos comerciais foram vandalizados. Mais de 300 manifestantes foram presos e acusados de vandalismo e desordem. 10 manifestantes ficaram feridos juntamente com 6 policiais.

Protestos em Ferguson no estado de Missouri em 2014. foto: Jeff Roberson/AP

Em 2016 foi a vez do senhor Keith Lamont Scott de 43 anos de idade. Ele foi morto pelo policial branco Brentley Vinson na cidade de Charlotteville no estado da Georgia. O senhor Scott foi morto ao sair do seu próprio veículo carregando uma arma. Ele se recusou ao pedido do policial para obedecer suas ordens em relação a sua arma. Na época sua esposa não aceitou a versão policial dos fatos.

Os distúrbios raciais que envolveram a cidade de Minneapolis no estado de Minnesota e outras cidades na América após a morte injustificável de George Floyd é somente a última manifestação de um país que insite em tratar seus cidadão negros como um grup sub-humano ou para ser um pouco mais suave como  cidadãos de segunda classe. Se por um lado os imigrantes brancos europeus enfrentaram problemas nas suas chegadas a América, eles acabaram se incorporando na cultura do pais em geral, principalmente por serem brancos. Para a comunidade negra esta aceitação nunca aconteceu por motivo de vários fatores históricos. O negro norte-americano acabou ficando marginalizado dentro do seu próprio país.

RACISMO NO CENTRAL PARK DE NOVA YORK.

AMY COOPER AT CENTRAL PARK
Amy Cooper no Central Park com seu cocker spaniel

Você sabe como chamam um negro com um diploma de faculdade nos Estados Unidos? Um criolo com um diploma. – Malcolm X

Criolo não foi bem o que o grande ativista falou. Na verdade o ativista pelos direitos humanos usou o termo “nigger”, uma palavra altamente ofensiva dirigida derrogatoriamente para a população negra.

Esta semana no famoso Central Park de Nova York o cidadão Christian Cooper estava cuidando de sua vida tranquilamente enquanto observava a natureza e os passarinhos. Ele é um ávido observador de pássaros (bird watcher em inglês), inclusive fazendo parte de uma organização na cidade. Enquanto estava parado ele observou que uma mulher estava acompanhada pelo seu cachorro sem a coleira, o que é proibido e factivél de uma multa na cidade. Ao pedir que dona colocasse a colera no seu “cocker spaniel”, o que ela não o fez, o senhor Cooper ofereceu um biscoitinho ao cachorro que estava destruindo o habitat natural dos passarinhos.

Foi neste instante que a situação saiu fora do controle. O senhor Cooper começou a filmá-la. Amy Cooper(o mesmo sobrenome mas sem relação alguma) pediu então para que ele parasse de filmar. Como ele se recusou, ela então passou a ameaçá-lo dizendo que iria chamar a policia. “Vou chamá-los”, ela disse. “há um afroamericano ameaçando a minha vida e a do  meu cachorro”, ela disse ao despachante da polícia. Amy Cooper disse depois em entrevistas que não sabia o que fazer nesta situação e que se sentiu ameaçada porque não sabia que tipo de biscoitinho o senhor Cooper estava dando ao seu cachorro.

Christian Cooper at Central Park
Christian Cooper com seu binóculos no Central Park

O vídeo que dura menos de 4 minutos deste encontro, logicamente viralizou na internet sendo compartilhado mais de 20 milhões de vezes. Ao ser entrevistada a noite na rede de televisao NBC, a senhora Amy Cooper pediu desculpas por sua atitude racista. “Quando eu penso na polícia… Eu penso neles como uma agência de  proteção e infelizmente isto fez com que eu percebesse que há muita gente neste país que.. que não tem este requinte.” Este pedido de desculpas não foi o suficiente para o seu empregador. Amy Cooper nativa de Chicago foi despedida da famosa Seguradora Franklin Templeton por causa de sua atitude altamente racista. Em nota a empresa disse que repudia qualquer atitude racista dos seus empregados.

O prefeito da cidade, o senhor Bill de Blasio, postou na sua conta do Twitter. “Ela chamou a polícia porque ele era um homem negro. Mas quem estava descumprindo a lei era ela. ela decidiu que ele era um criminoso e nós sabemos porque.” Para o prefeito, só o fato dela ter chamado a polícia porque estava em frente a uma pessoa negra presumindo-se ameaçada constitui um ato racista.

A policia compareceu no local após a chamada de Amy Cooper. Tanto ela quanto o senhor Christian já não estavam mais no local.

Mais de 50 anos atrás Malcolm X disse o que a América branca pensava das pessoas negras com diplomas. Este incidente recentemente no famoso parque da cidade é mais uma prova que muita gente  na América ainda vê as pessoas negras com um olho enviesado. O diploma da prestigiosa Universidade Harvard não salvou o senhor Cooper deste embroglio.