CLORA BRYANT (1927 – 2019)

Clora Bryant

Clora Bryant com seu trumpete

Clora Bryant foi uma daquelas pessoas agraciadas com um talento natural para a música. Ela nasceu com o dom natural para tocar o trumpete. Poderíamos sem dúvida alguma associá-la aquele jogador de futebol de várzea altamente talentoso, mas que por azar nunca foi descoberto para jogar num time profissional, mas acabou tornando-se uma lenda nos campos da várzea.

Considerada uma das grandes damas do Jazz na costa Oeste dos Estados Unidos, mas por causa do seu gènero Clora não atingiu o estrelato que muitos dos seus  pares masculinos conseguiram durante sua época como artista profissional. Auto declarada trumpestista, ela surgiu com o movimento de Jazz Bep Bop apresentado ao mundo pelo saxofonista Charlie Parker e o trumpestista Dizzy Gillespie entre outros no início dos anos de 1950.

Frequentemente encontrando discriminações sexistas, e sem o apoio das grandes gravadoras da época ou de um agente, Clora Bryant só apareceu como uma“bandleader” na sua meia idade. Segundo Dizzy Gillespie, a trumpetista “tinha uma afeição carinhosa pelo trumpete. Este carinho não estava ligado somente as notas musicais.”

Clora Bryant creditou seu pequeno sucesso ao apoio incondicional do seu pai, um trabalhador braçal que criou 3 filhos quando sua esposa faleceu em 1930 e Clora tinha apenas 3 aninhos. “Ninguém nunca me disse, ‘voce nao pode tocar trumpete, voce é uma menina’,” ela disse numa entrevista em 2007 para revista Jazztimes. “Meu pai me disse, ‘vai ser um desafio, mas se voce irá enfrentá-lo terá todo meu apoio até o fim’, e ele me apoiou”.

Clora Bryant na California em 1954

Clora Bryant no Clube de Jazz Hermosa na California em 1954. Getty/image

A princípio ela começou com o piano, mas passou para o trumpete depois que sua escola de ensino médio criou uma banda. Mostrando uma disposição natural para o instrumento musical, ela sempre despertava bem cedo para tomar aulas particulares antes de ir para a escola.

Clora Bryant decidiu ir estudar na Universidade A&M, uma histórica escola negra fora da cidade de Houston, no estado do Texas porque o estabelecimento tinha uma banda de Jazz composta somente por mulheres.

Em 1945 mudou-se juntamente com a família para Los Angeles. Seu pai saiu fugido da cidade do Texas acusado por um grupo de pessoas brancas de ter roubado tintas de uma casa de ferragens. Depois de ouvir o trumpetista Howard Mcghee num clube de Jazz em Los Angeles ela ficou apaixonada pelo ritmo sincopado do Bep Bop.  Clora ainda era menor de idade,  então ficou do lado de fora simplesmente transformada com o som que saia de dentro do clube.

Em 1946 ela entrou para a banda “International Sweethearts of Rhythm” a principal banda feminina do Jazz no país. Logo depois incorporou-se a banda “Queens of Rhythm”. Quando deixou esta banda Clora Bryant aprendeu a tocar o baixo. Animadora da platéia, ela as vezes tocava o trumpete com uma mão enquanto tocava a bateria com a outra.

Durante boa parte dos anos de 1950 ela regularmente estava a frente das famosas “Jazz Sessions” em Los Angeles. Ela tocava também na banda da casa de Jazz Alaban onde era vocal de apoio (back vocal em inglês) para artistas como a cantora Billie Holiday e a artista Josephine Baker.

Durante um breve periodo viveu em Nova York, mas logo retornou para Los Angeles onde permaneceu o resto da sua vida tornando-se uma jazzista conhecida e mentora para novos talentos. Clora Bryant continuou bastante ativa até os anos de 1990 quando parou de se apresentar por problemas relacionados a sua saúde. Em 2002 foi agraciada com o prêmio “Lifetime Achievement” reconhecimento  pelo seu imenso trabalho. O premio foi entregue pelo renomado “Kennedy Center”  de Washington no festival de mulheres do Jazz que aconteceu no teatro Mary Lou William. Ela cantou algumas de suas composições ao lado dos jovens músicos.

No final do documentário “Trumpetistically, Clora Bryant”, dirigido por Zeinabu Davis, ela reconhece a frustação de ter sido deixada para tras enquanto seus amigos homens subiram para o estrelato musical. Entretanto, ela ao mesmo tempo expressou um intrépido orgulho por sua distinta carreira mesmo assim.

“Estou sentada aqui quebrada como os Dez Mandamentos, mas ainda sou rica”, ela disse. “Com amor e amizade  e música. E eu sou rica em vida”.

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PQP – O 13 DE MAIO É IMPORTANTE SIM!

13DEMAIO DE 1888

Quando comecei minha alfabetização no Brasil em 1968 com apenas 7 anos de idade, o dia 13 de Maio de 1888 tinha ficado para trás há mero 80 anos e o nascimento da nova República há mero 79 anos. Na minha inocente mente eu não tinha idéia do tamanho, da importância e da influência que a instituição da escravidão teve na formação da sociedade brasileira. Começava neste mesmo ano a minha total socialização acreditando que o Brasil era uma sociedade onde negros e brancos viviam  harmoniosamente e onde existia uma verdadeira democracia racial.

Até terminar meus estudos no Brasil no início dos anos 80 essa foi a minha ideologia. Assim como milhões de jovens negros, jamais contestei a ideologia da democracia racial brasileira. Fui socializado não para contestar, mas sim para aceitar o que os professores da época diziam sobre a escravidão no país. E por conseguinte não dar muita importância ao seu legado. Vale a pena lembrar que jamais tive um professor negro durante meus anos de aprendizado escolar no Brasil. Fosse esse aprendizado na escola pública ou privada.

Os dados sociais de pobreza, desemprego, piores moradias, piores empregos dificil ascenção social e mortes por violência do Estado jamais eram conectado com o legado da escravidão.  Se milhões de negros estavam na base da pirâmide social era somente porque eles não se esforçavam tanto ou mais como as pessoas brancas. Trezentos e cinquenta anos de escravidão não tinham deixado qualquer marca na sociedade. Tudo era uma questão de esforço pessoal.

O projeto principal do governo na área da Educação sempre foi o de minimizar a importância, o impacto e o legado da escravidao na sociedade brasileira. Ou seja, sempre foi imperativo por parte do governo federal, da academia e dos formadores de opinião  praticamente riscar dos livros escolares qualquer menção dos horrores da escravidão. Em 1968 o projeto de embranquecimento não somente da população mas da história brasileira continuava intacto.

Luiz Gama Jose do Patrocinio e Andre Rebouças

Os abolicionistas – Luiz Gama, José do Patrocínio e André Rebouças.

Nestes pouco mais de 50 anos desde que me sentei num banco escolar no Brasil muitas coisas mudaram logicamente. Hoje a  história afrobrasileira e africana é ensinada nas escolas. E verdade que essas histórias ainda encontram bastante resistência, principalmente por parte de uma elite atrasada que ainda pensa o Brasil em termos históricos somente como parte de uma históra da civilizacao branca européia.

Se quando estava sentado nos bancos escolares as referencias de pessoas como André Rebouças, Luiz Gama, José do Patrocinio, Luiza Mahin, Zumbi dos Palmares juntamente com as insurreições de escravos tinham sido apagadas da nossa história, hoje este nao é mais o caso. Há centenas de livros falando sobre o tema da escravidão e seu legado nefasto na sociedade brasileira. O tema do legado da escravidão é discutido abertamente por ativistas e intelectuais negros dentro e fora da academia.

Se durante durante meus anos escolares a imagem da princesa Isabel nos livros de história estava ligada diretamente a abolição da escravidão no Brasil, como se o ato tivesse sido um presente de uma elite branca a população negra cativa, hoje a história é completamente diferente. É verdade que a princesa Isabel teve sim um papel importante em abolir a escravidão, mas é verdade também que os ex escravos, os abolicionistas e parte da minúscula intelectualidade negra livre também teve um papel fundamental.

13 de Maio de 1888 fim da escravidão

13 de Maio de 1888- Há exatos 132 anos a escravidão era abolida no Brasil.

Desde o meio dos anos 90 parte do movimento negro brasileiro vem contestanto o 13 de Maio. Para muitos ativistas negros a morte de Zumbi dos Palmares deveria substituir em importância a data da abolição. Uma coisa não exclui a outra. Zumbi do Palmares teve sim uma importância enorme na luta contra escravização negra. Durante décadas ele lutou contra os portugueses e seus trabucos. Porém, o fato é que se sua resistência contribuiu para a luta contra a escravidão, sua morte não foi o fator decisivo para abolir a instituição. A escravidão no Brasil acabou no dia 13 de Maio de 1888. Esta data é o nosso grande divisor de água da nossa história. Por vários anos a data tem sido difamada. Está na hora de resgatarmos sua importância para a história brasileira.