ESTANTE LITERÁRIA – GÊNIOS DO MAL

Uma das características mais fortes da cultura norte-americana é sua capacidade de abrir-se para o novo e sua engenhosidade em explorar novas idéias e novas áreas até então inexploradas. Isto sempre fez dos Estados Unidos um experimento das possibilidades do ser humano. A América sempre serviu como uma enorme bússula para guiar outras culturas no planeta. Atualmente ela é governada por alguém que quer fazê-la “grande” novamente.

A América já foi chamada também de o “Novo Mundo”. Um local onde o conceito de liberdade, auto-governo e identidade nacional foi construido é bem verdade com a morte de milhões de nativos americanos e o trabalho compulsório de milhões de africanos escravizados.

No extremamente fascinante livro “Evil Geniuses – The Unmaking of America: A Recent History”, o autor e crítico cultural, Kurt Andersen faz uma análise devastadora economicamente falando das últimas quatro décadas norte-americana culminando com a eleição do presidente Donald J. Trump em 2016.

Kurt Andersen coloca uma lanterna nas teias escondidas do país e explora com muita clareza a profunda iniquidade que atinge todas suas regiões neste início do século XXI. Sua tese é tentar explicar a atual situação econômica e o enorme labirinto econômico no país que venera o livre mercado, o chamado “laissez faire”.

Para o autor, os Estados Unidos estavam funcionando relativamente bem para a vasta maioria da população logo após o final da 2a Grande Guerra Mundial até os anos 1980. Mesmo levando em consideração os extraordinários acontecimentos dos anos 1960 e 1970, como a guerra do Vietnã, a luta pelos direitos civis e o choque no preço do petróleo. Na época por exemplo, na área econômica, o salário de um alto executivo comparado com a média dos seus funcionários era 50 vezes maior. De repente, essa média pulou para 300, 400, 500 e hoje em dia chega a 1000 vezes mais.

No início da década dos anos de 1980 a América acabou sendo sequestrada pelo grande capital supremacista que passou a pregar e promulgar como diz o autor, com suas carteiras cheias de recibos, uma volta a época do pré “New Deal” (medidas econômicas decretadas pelo então presidente Franklin Roosevelt após a queda da bolsa de 1929). Ou seja, a época do cada um por si, onde tudo está a venda, ganância é bom, os ricos ficam cada vez mais ricos, onde a injustiça não pode ser combatida e nada resta a não ser o pensamentos e a reza para os perdedores.

O grande capital passou a vender a imagem que o mercado estava regulando todas as atividades econômicas e também os salários. Quanto menos intervenção do governo melhor. Ao assumir o comando do país como presidente em 1981, Ronald Reagan disse que o governo era o problema. Os regulamentos e as estruturas de proteção contra os abusos das grandes empresas e do grande capital criadas no início do século XX foram sendo abolidas paulatinamente favorecendo as empresas e seus CEOs respectivamente. Os politicos democratas deram suas mãos para os politicos republicanos num grande acordo onde o trabalhador foi ficando cada vez mais fraco e sem proteção.

Kurt Andersen falando sobre o seu livro este ano em Agosto.

Usando uma mea culpa, Kurt Andersen, que se considera um liberal e progressita classe média, admite que assim como ele, vários intelectuais liberais e políticos democratas progressistas aceitaram a idéia da América ser um país de economia de mercado livre, o famoso laissez faire. O grande boom econômico dos anos de 1980 favoreceu este pensamento.

Esta idéia de uma economia de mercado livre foi sendo cada vez mais disseminada dentro das universidades, “Think Tank”(grupo de reflexão fundado com dinheiro das grandes empresas) e fundações mais conservadoras pró mercado. O Estado mínimo sempre estava sendo reverenciado a todo custo.

Kurt Andersen admite que o seu emprego como um jornalista de renome, bem como o emprego de uma classe de intelectuais não estavam sendo ameaçados de serem terceirizados como o de milhões no país. Não houve por sua parte nem deste grupo uma preocupação sincera com o que realmente estava acontecendo economicamente com uma grande parcela da população. Princpalmente para aqueles que não conseguiram um diploma universitário. Como ele mesmo reconhece esbarrar nos milhonários nas festas patrocinadas pelas revistas onde trabalhou e seu alto salário acabou ajudando na sua “cegueira” jornalistica.

Além dos intelectuais, ele culpa também os democratas que pularam a cerca e passaram a apoiar as políticas de desmantelamentos de proteção do trabalhador. Todas implementadas por Ronald Reagan. O ex presidente ficou famoso por cortar impostos das grande empresas e dos mais ricos. Tudo isso foi feito é claro em colaboração com os políticos democratas. Votar pela desregulamentação da televisão a cabo? Contratar executivos da financeira Goldman Sachs como conselheiros do governo? Parabenizar o escritor conservador Charley Murray por suas críticas contra as mães recebendo auxílio do governo?

Em todas estas ocasiões os democratas estavam a bordo. Como diz o autor, com democratas como esses, será que precisamos de um segundo partido para defender os plutos?

Como se estive pilotando um aviçao em uma enorme cabine voando a baixa altitude, ele jamais perde de vista o que está acontecendo as pessoas no chão. Kurt Andersen é um guia com bastante conhecimento e bastante gracioso.

“Evil Geniouses” é um livro para causar um enorme impacto nos seus leitores. Ele certamente deveria ser lido e discutido fora dos círculos intelectuais onde a distribuição de vinho e caviar é farta. Foi exatamente em ambientes assim que o autor acabou adormecendo por mais de 30 anos./NYT

Evil Geniuses – The Unmaking of America: A Recente History

Kurt Andersen

464 páginas – US$30

CHINA: É MAIS FÁCIL FALAR DO QUE FAZER.

Guerra comercial entre os EUA e China

Mais uma variável pode ser adicionada no debate sobre o poderio econômico da China atualmente. Segundo um interessante artigo publicado no periódico financeiro The Wall Street Journal, as companhias que estão pensando em uma dissociação do poderoso dragão chinês vão precisar de uma ajuda extensiva do setor público dos seus respectivos países.

Muitas empresas ao redor do planeta querem diversificar suas operações e ao mesmo tempo cortar um pouco a dependência econômica relacionada a China e aos altamente especializados trabalhadores chineses.

A esperança de muitas empresas é protegerem-se contra alguma futura epidemia parecida com o COVID-19. Em muitos casos a dependência acabou aumentando por causa dos materiais de proteçao que o governo chinês acabou fornecendo a vários países. A ironia nisto é que a China acabou sendo a primeira grande economia a se recuperar da pandemia.

Se os empresários realmente estiverem interessados em uma dissociação ao menos parcial, sem comprometer suas situações financeiras, uma enorme ajuda financeira do setor público certamente será precisa. Empresas como a Nike e Tesla mencionaram China como um grande fator na recuperação de suas finanças no terceiro semestre.

Enquanto isso, o custo para relocar produções fora da China é enorme, e sem controlar a disseminação do COVID-19 nos seus respectivos países, a variável econômica e sanitária para as empresas abandonarem seus altos investimentos na China será difícil de ignorar.

Analistas financeiros do Bank of America publicaram um estudo recentemente mostrando que para uma total dissociação dos tentáculos chinês seria necessário um investimento de pelo menos 1 trilhão de doláres nos próximos 5 anos.

Um outro estudo publicado no início do ano mostrou que pelo menos 76% das empresas pesquisadas nos Estados Unidos com suas manufaturas na China estão pensando em tirar parte de suas produções fora do país. Um terço das empresas pesquisadas estão considerando mudar num futuro próximo.

Com a pandemia do COVID-19 cobrindo praticamente todo o planeta, uma coisa ficou bastante clara para as grandes empresas dos EUA e do mundo. É insustentável para seus negócios esta quase total dependência em relação a China.

Para que haja realmente uma saída, ou pelo menos uma menor dependência relacionada a somente um país, economias ao redor do mundo devem ajustar suas prioridades. Ou seja, é imperativo controlar melhor o coronavirus para que as indústrias possam recomeçar a produzir fora da China.

Isto deverá incluir um extensivo apoio do setor púbico para pesquisas e desenvolvimento. Investir em melhores infraestruturas e trabalhadores mais qualificados e uma melhor cooperação econômica entre as nações amigas. Quando o assunto é dissociar da China é certamente muito mais fácil falar do que fazer./WSJ