JULIUS LESTER(1939 – 2018)

Julius Lester

Uma das vozes literárias menos conhecida entre os inúmeros autores afroamericanos é a do cronista Julius Lester. Considerado por muitos críticos como um “provocateur”, seu nome entrou para o círcuito literário literário com o lançamento do seu primeiro livro “Look Out, Whitey! Black Power’s Gon’ get your Mama! (1968)”. Neste pequeno mas bastante incisivo livro, Julius Lester escreveu: “O mundo dos negros americano é diferente daquele da América branca. A diferença vem não somente da segregação imposta ao homem negro, mas da própria natureza da negritude e sua evolução sob a segregação.”

Autor de 4 dúzias de livros tanto para adultos como para crianças, Julius Lester era também crítico Literário, Cultural, Folclorista, Fotógrafo, Ativista pelos diretos civis e Músico profissional. Sua escrita claramente estava vinculada a história dos afroamericanos, principalmente no século XX. Especialmente retratando as turbulentas décadas dos anos 60 e dos anos 70. Era uma história e seu trabalho deixava bem claro quanto a isto que colocava junto vidas negras “como contas num colar de dor”, como ele mesmo escreveu para o periódico The New York Times.

Look out Whitey

Julius Lester não fugia de uma boa controvérsia. Uma dessas controvérsias aconteceu em Nova York quando ele era apresentador de um programa na rádio comunitária WBAI. No crepúsculo do final de 1968, o então radialista leu no ar um poema altamente ofensivo a comunidade judáica. Escrito por um estudante reclamando das greves dos professores na rede pública, o poema começa assim “Aí rapaz judeu com o quipá na cabeça/ seu cara pálida garoto judeu/ desejaria que estivesse morto.

Naturalmente houve uma enorme comoção por parte da comunidade judáica . Entretanto, a estação de rádio não só não despediu o senhor Lester, como o FCC(orgão fiscalizador de comunicação nos EUA) não tomou qualquer atitude contra a rádio, ou de censurá-lo. Nos anos 80 ele entrou em um outro atrito, desta vez com o escritor James Baldwin porque o escritor resolveu defender o pastor Jesse Jackson quando este usou um termo altamente derrogatório ao referir-se aos judeus de Nova York durante sua campanha para presidência em 1988.

John Herny

 

Julius Lester sabia sobre sua ancestralidade judáica pelo lado de sua mãe. Seu bisavô de nome Adolph Altschull imigrou da Alemanha para o estado de Arkansas. O sonho do seu para era que Julius seguisse seu caminho religioso. Porém, o sonho do jovem Lester depois de graduar-se da famosa universidade negra Fisk em Nashville, era seguir a carreira musical.

Durante a luta  pelos diretos civis dos negros nos anos 60, Julius Lester se envolveu com Comitê Coordenador Estudantil de Não-Violência (SNCC em inglês) para quem escrevia além de estar encarregado do departamento de fotografia. Como encaregado viajou para o Sul para registrar o movimento pelos direitos civis e viajando inclusive para o Vietnã para fotografar os efeitos do bombardeamento norte-americano.

Em 1982 Julius Lester converteu-se ao judaísmo depois de um sonho onde usava o quipá enquando dançava alegremente.

Julius Lester faleceu na cidade de Palmer no estado de Massachusetts em Janeiro de 2018 aos 78 anos de idade./NYT

ESTANTE LITERÁRIA – REVOLUÇÃO CULTURAL CHINESA

Red-Color News Soldier

O fotografo chinês Li Zhensheng, de 78 anos de idade, tem uma missão. Esta missão é mostrar ao maior número possível de compatriotas o que realmente foi a Revolução Cultural na China durante parte das décadas dos anos 1960 e dos anos de 1970.

“O mundo inteiro sabe o que aconteceu durante a Revolução Cultural”, disse o senhor Li. “Sómente a China não sabe. Muita gente não tem idéia”. Seu livro de fotografias “Red-Color News Soldier” (Cor-Vermelha Soldados da Notícia), está ganhando sua primeira versão em chinês. O livro foi publicado pela universidade de Hong Kong.

Misturando história e memória, “Red-Color News Soldier”, mostra fotografias tiradas pelo senhor Li quando ele era ainda um jovem jornalista empregado por um jornal local no nordeste do país. Estas fotos já foram mostradas em mais de 60 países. A Revolução Cultural chinesa foi um marco no país. Ela colocou estudantes contra professores, pais contra filhos e por último amigos contra amigos.

Red-Color News Soldier

Com este livro o senhor Li junta-se a um pequeno grupo de dissidentes chineses tentando mostrar os excessos do ditador Mao Zedong e ao mesmo tempo desafiar a narrativa atual do presidente Xi Jinping que tem como finalidade apagar o traumático passado.

Assim como a discussão sobre o que representa a Democracia Racial brasileira e o que realmente foi a escravidão, na China a discussao sobre a Revolução Cultural acabou virando um enorme tabu. Representantes do partido oficial chinês tem sistematicamente bloqueado o lançamento do livro na China.

A nova edição do livro só pode ser distribuida no Estado semi autonômo de Hong Kong. Entretanto, a esperança do senhor Li é que o livro chegue ao maior número de pessoas na China. “Levaremos os livros para o Continente um por um”, disse o senhor Li. “Será como formigas movendo uma casa.”

Red-Color News Soldier - The Photographs of Li Zhensheng

Depois que Mao Zedong desencadeou a Revolução Cultural, o que começou como uma campanha política direcionada a retomada do poder no topo, logo tornou-se um grande movimento nacional que abalou todo os níveis da sociedade chinesa. Grupos rivais de jovens militantes conhecidos como “Guardas Vermelhos” lutaram uns contra outros e contra a considerada “classe de inimigos”, incluindo intelectuais e funcionários do governo entre outros.

De acordo com historiadores mais de 1.5 milhão morreram, milhões foram perseguidos e centenas foram conduzidos ao suicídio.

A coleção de fotografias da época do senhor Li é um retrato sutíl tanto da paixão como da dor que o movimento gerou.  Hoje mais de 50 anos depois há pouca discussão sobre o período na China. O que alguns chamam de aminésia coletiva piorou nos últimos anos porque os lideres tomaram medidas que impedem o entendimento da história moderna.

Red-Color News Soldier

O senhor Li que ja foi agraciado com um museu em sua homenagem na pequena província de Sichan possui um outro acervo importante de fotografias tiradas no período dos protestos ocorridos na praça Tiananmen em 1989.

Ao ser perguntado sobre a possibilidade de um novo livro de fotografias sobre aquele evento, ele foi bastante melancólico na sua resposta. “Não vamos falar sobre o livro de Tianamen. Uma história de cada vez”./NYT