ESTANTE LITERÁRIA – TENTANDO ESCAPAR DA IMPOSIÇÃO RACIAL AMERICANA.

Thomas Chatterton Williams nasceu em 1981 na cidade de Newark em Nova Jersey. O jornalista e crítico literário é o que poderíamos chamar de uma voz dissidente do discurso regular que geralmente define para muitos negros o racismo como a característica principal na vida dos afroamericanos na América. O escritor Ta-Nehisi Coates assim como a jornalista Nikole Hannah-Jones fazem parte deste grupo. Atualmente morando em Paris, Thomas escreve para o New York Times Sunday Magazine, o eclético caderno de domingo do periódico The New York Times.

Seu mais recente livro, Self-Potrait in Black and White (Autoretrato em Preto e Branco) é sua tentativa de fugir um pouco da designação racial convencional atrelada a ele. O crítico chegou a conclusão que seus filhos não serão vistos por nínguem, nem por eles mesmos como sendo negros.

Thomas é filho de um casamento inter-racial. Seu pai é negro e sua mãe é branca. O jornalista é casado com uma mulher branca francesa e sua primeira filha chamada Marlow saiu do útero da mãe com os cabelos loiros e os olhos azuis. Logicamente isto foi um tremendo impacto na atitude racial do pai. Ele certamente não quer seus filhos atrelados a qualquer identidade racial.

Pensando na sua própria socialização nos Estados Unidos, Thomas passou a se considerar um ex negro. Isso mesmo, um ex negro. É claro que esta atitude é como a do menino que briga com pai porque não ganhou o tão esperado presente de natal e resolve sair de casa de birra. Porém, ele nem chega ao portão de entrada da casa. E difícl acreditar que Thomas irá realmente abandonar sua socialização e história afroamericana.

Sua grande preocupação ao ver sua filhinha recém nascida era como ela se vera? “Em todas estas salas brancas onde somos socializados e certamente onde ela estará também sendo educada, o que ela aprenderá sobre si mesma? Escreve Tomas sobre sua filha.

O livro Self-Potrait começa com sua luta interna a respeito do destino da sua filha. “Desenvolverá ela meu GPS ancestral? Escreve Thomas, ou esse sinal enfraquecerá – será correto para mim transmitir meus hábitos de orientação, alguns dos quais estão infestados de culpa e aprofundado numa ilusão, a sua cabeçinha inocente e despreocupada?”

Dizer que seus pais são inter-raciais já não faz nenhum sentido para ele, se é que jamais o fez. Como sabemos, raça é uma construção social, uma bancarrota tentativa em eulogizar um sistema político. Por causa da regra de uma gota de sangue negro na América torna automaticamente uma pessoa negra independente da cor da epiderme, Thomas jamais se encaixou totalmente como um afroamericano, já que sua mãe é branca. A solução para o jornalista é bastante clara. Rever seus conceitos raciais renunciando totalmente sua identidade afroamericana. Será que isto incluirá o passaporte norteamericano também?

Thomas Chatterton Williams juntamente com sua família./Chrisopher Anderson/Magnum / NYT

Esconder sua própria identidade é uma maneira de tentar escapar de uma parte da sociedade que subjulga parte de seus cidadãos como inferiores, sem cultura e sem história.

Na história dos EUA há vários exemplos desta fuga racial identitária. Uma das mais conhecidas é a do filme Imitação da Vida (1959) estrelando Lana Turner e Juanita Moore. O filme discute raça, genêro e classe. O preço a pagar para pertencer a um grupo étnico é a própria anulação racial. “Uma morte social deve ocorrer para que um novo ser branco possa nascer”, escreveu Allyson Hobbs no aclamado livro “A Chosen Exile: A History of Passing in America LIfe”. (2016)

Thomas Chatterton Williams não quer mais ser chamado de negro. Porém, isto não quer dizer que ele esteja querendo deixar de lado sua identidade racial. Na verdade, o que ele busca agora depois do nascimento de sua filha branca é libertar-se das amarras raciais históricas norteamericanas colocadas sobre seu corpo negro. Ele quer agora escapar desta sua identidade negra. Ou seja, sua busca agora é por uma total liberdade racial.

Em Self-Potrait testemunhamos a viagem de auto descobrimento e autocriação onde suas memórias são usadas como uma ferramenta pessoal sobre uma conversa franca sobre raça.

No final o livro acaba sendo uma história de uma pai e sua maneira de comunicar-se com sua filha que tem uma epiderme diferente da sua, mas contem os genes e traços do seu pai negro, mesmo que ela agora não se veja como tal.

Self-Potrait in Black and White

Thomas Chatterton Willimas

Editora – W. W. Norton

192 Páginas – US$25.95

CRÈME DE LA CRÈME NOIR

Residência da família Obama em Martha’s Vineyard

Martha’s Vineyard, a pequana ilha paradisíaca no estado de Massachussetts, é reconhecida internacionalmente por seu uma côlonia de férias da elite dentro da elite dos Estados Unidos. Ou seja, o local é frequentado somente pela famosa crème de la crème. A esclusividade desta ilha é tanta que ela só pode ser acessada via barco ou um monomotor. A família mais conhecida deste local é a dos Kennedys.

Este eclético clube acaba de receber mais um poderoso sócio. O ex presidente dos Estados Unidos, o senhor Barack H. Obama, juntamente com sua esposa, Michelle Obama, adquiriu uma propriedade no local no valor de US$14.85 milhões. Esta propriedade tem 7 mil metros quadrados.

A casa possui 7 quartos, uma enorme sala de jantar com uma lareira de pedra. há também 2 alas construídas especialmente para convidados, e uma grande suite principal com um terraço para observar o por do sol e as águas ao redor da ilha.

Em 1937 o governo democrata do Franklin Delano Roosevelt desenvolveu o programa de habitação chamado “Lei Nacional de Habitacional” (United States Housing Authority em inglês) para ajudar principalmente famílias de baixa renda a comprarem propriedades como uma forma de criar riqueza e ao mesmo tempo ajudar a economia do país.

Michelle e Barack Obama ao lado das filhas.

É de conhecimento geral que este programa em colúio com a indústria privada de habitação recusava discaradamente empréstimos para famílias negras em áreas onde os proprietários brancos tinham suas residências. Esta tática usada amplamente era chamada de ‘red lining’ (linha vermelha). Estas áreas eram demarcadas nos mapas imobiliários das cidades. A razão desta horrenda tática era se famílias negras começassem a comprar propriedades ao lado de famílias brancas as propriedades das pessoas brancas seriam desvalorizadas. Famílias negras eram direcionadas para certas áreas da cidade indiferentemente de sua renda familiar.

Os ricos suburbos norte-americanos foram desenvolvidos dessa maneira. Para se ter uma idéia dessa separação basta ver qualquer filme de Hollywood onde o subúrbio com suas lindas casas e gramas aparadas é mostrado, jamais são vistas famílias negras ao lado de famílias brancas.

Esta prática foi perdendo sua força durante o movimento pelos direitos civis no meio dos anos de 1960. A partir das leis dos direitos civis ficava expressamente proibido qualquer tipo de disciminação na comprar de imóveis.

Mais de 50 anos depois do final do ‘red lining’ uma família negra comprou uma propriedade ao lado de pessoas brancas de altíssimo poder financeiro como o ex secretário de Estado, o senhor John Kerry, da família do ex presidente Bill Clinton, do ex apresentador de televisão David Letterman, e de Richard Saltzman, um alto executivo de uma firma de investimentos em Los Angeles sem que estas famílias perdessem o sono com a “invasão”.

Se a preocupação de milhões na América durante mais de 50 anos era de que se uma família negra comprasse um imóvel ao lado de um imóvel de pessoas brancas, estas últimas teriam suas propriedades desvalorizadas, a presença do ex presidente Obama e sua família negra na ilha Martha’s ao lado de proprietários brancos certamente não trará desvalorização para as propriedades local, muito pelo contrário. É uma pena que nem todos os negros possam ser presidente dos Estados Unidos da América e com isso conseguirem o mesmo poder financeiro que dispõe o atual ex presidente. C’est la vie.