COMBATENDO UMA PANDEMIA USANDO ANTOLHOS.

O presidente Jair Bolsonaro sorri. Enquanto isso o Brasil contabiliza um quarto de milhão de mortes relacionadas ao covid-19. (Photo by Andre Borges/NurPhoto via Getty Images)

Com as últimas manchetes estampadas nos noticiários nacionais e também internacionais, ficou claro que no atual momento não há qualquer coordenação conjunta entre o governo Federal, governo Estadual, e o Municipal para o combate a pandemia do covid-19. O Brasil ultrapassou a inglória marca de mais de 260 mil mortes segundo dados oficiais. Na sua edição do dia 4/3, o periódico The New York Times dedicou uma página inteira ao caos sanitário acontecendo no Brasil no momento.

Desde março do ano passado, logo no começo da pandemia, o Executivo brasileiro na voz do presidente Jair Messias Bolsonaro vem tentando sistematicamente enfrentar a pandemia como se ela fosse uma mera gripe. Ou uma gripezinha como ele costumava dizer na época. Era como tentar estancar uma grave hemorragia usando apenas um pequeno band-aid. Logicamente isso não iria funcionar dada a gravidade do problema. Um ano depois a situação virou uma calamidade pública. No ano passado o presidente seguiu fielmente a cartilha antivacina e antiisolamento social verbalizada pelo presidente norte-americano, o senhor Donald J. Trump. Em várias ocasiões o presidente Jair Bolsonaro recomendou o uso da cloroquina como forma de combater o virus.

O problema agora é que o negacionista que ocupava a Casa Branca já não mora mais lá. De acordo com o atual presidente, o senhor Joe Biden, o Estados Unidos terão toda sua população de mais de 300 milhões totalmente vacinada até o final de Junho. Usando de sua prerrogativa como presidente, ele invocou o Ato de Guerra e pediu para companhias farmacêuticas concorrentes que trabalhassem juntas em pró de erradicar a pandemia que no país já matou mais de 500 mil pessoas. Desde que assumiu o comando do país no dia 20 de Janeiro, Joe Biden tem como prioridade eliminar a pandemia. Esta cartilha Jair Bolsonaro faz questão de não seguir.

Um ano de pandemia e o Brasil infelizmente não aprendeu muito. Os negacionistas antivacina, antimáscara, e antidistanciamento social continuam influenciando as atitudes do senhor Bolsonaro. Enquanto isso, milhares de pessoas seguem morrendo de Norte a Sul no país. Até o momento o presidente não assumiu qualquer responsabilidade pela forma desordenada que o Brasil enfrenta o vírus e pela mais de 260 mil mortes. Jair Bolsonaro segue dizendo que suas mãos foram amarradas pela Suprema Corte que deram total autonomia para os Estados e Municípios agirem por conta própria. Esta enorme falácia é repedita por seus seguidores com a nítida intenção de macular os juízes do STF e livrar Jair Bolsonaro de qualquer responsabilidade.

Falta de oxigênio hospitalar para tratar pacientes com a covid-19 em Manaus (AP Photo/Edmar Barros)

Enquanto países com diferentes ideologias políticas tem como prioridade o combate ao covid-19, o Executivo brasileiro segue caminhando na contramão da história e torpedeando os esforços estaduais e municipais que tentam herculaneamente estancar a hemorragia que atingiu a estrondosa marca de quase 4 mil mortes nos últimos 30 dias. No momento o Brasil segue o caminho inverso. Aos olhos do mundo o Brasil está se tornando um grande pária internacional. O país segue nadando contra uma correnteza que a cada dia que passa vai se tornando mais forte. Ou seja, países ao redor do mundo continuam testemunhando queda nas mortes relacionadas ao covid-19, mas no Brasil elas seguem aumentando como se elas fossem aqueles números dos índices inflacionários que o Brasil viveu durante a década perdida dos anos 1980.

Jair Bolsonaro teve a chance de comprar milhões de vacinas desenvolvidas pelo laboratório Pfizer, mas por causa de sua teimosia e birra, recusou a oferta porque na sua visão com antolhos, o laboratório estaria demandando procedimentos legais que ele não estava disposto a cumprir. Alguém na area jurídica do Executivo deveria alertar o presidente que o laboratório estava entrando num contrato com práticas que são normais ao redor do planeta.

Como se não bastasse sua clara ignorância com relação a letalidade da pandemia e as ações necessárias para conter o contágio (Jair Bolsonaro recusa o uso da máscara quando esta cercado pelo seu séquito), o presidente vai as redes sociais para reclamar contra as críticas que vem recebendo dizendo: “Chega de frescuras, de mimimi, vamos ficar chorando até quando?”

Esta certamente não era a liderança que o país buscava quando elegeu o senhor Bolsonaro em 2018.

BATALHANDO CONTRA A INVISIBILIDADE E AS MICRO AGRESSÕES DIÁRIAS.

Giulia Gayoso e Juan Paiva protagonistas do filme M8 – Quando A Morte Socorre A Vida dirigido por Jefferson De.

Logo de saída no longa M8 – Quando A Morte Salva A Vida, o mais recente longa do diretor Jeferson De, podemos inferir claramente que ele usa sua luva de pelica para bater no rosto de muita gente no Brasil. O eclético cineasta usa seu olho mágico por trás da câmera para chacoalhar principalmente aqueles que ainda insistem na falácia da Democracia Racial, Meritocracia e os que insistem em dizer que o Candomblé é o culto de uma raça primitiva. Adaptado livremente do livro homônimo escrito por Salomão Polakiewics, M8 conta a história de Maurício (Juan Paiva), um estudante de medicina e sua batalha contra sua invisibilidade e as Micro agressões sofridas diariamente.

No início do filme vemos o jovem estudante correndo afoito pelos corredores da Universidade de Medicina no Rio de Janeiro para chegar a sua sala. Quando finalmente encontra sua classe e entra na sala é recepcionado por um olhar desdenhoso do professor que demonstra que aquele não era o lugar para o estudante negro. Uma alusão clara de que muita gente no Brasil ainda acredita que os negros estão invadindo certos espaços privilegiados. Maurício é o único estudante negro na sua turma.

Quando dois amigos oferecem uma carona, e ele a princípio recusa, sabemos o motivo. Sua recusa tem a ver com o abismo social e racial entre a zona sul carioca branca, comunidades e as periferias negras. Este abismo fica em evidência quando Maurício está chegando em casa de carro na companhia dos amigos e é perguntado por um deles se o local onde sempre morou com a mãe não é perigoso.

Mariana Nunes e Juan Paiva. Mãe e filho no longa metragem dirigido por Jeferson De.

O filme que tem duração de aproximadamente uma hora e meia abordando assuntos polêmicos que o Brasil até pouco tempo se recusava a discutir abertamente. Como por exemplo, o não reconhecimento de pessoas negras como cidadãs com plenos direitos no país. A abordagem truculenta da polícia sem qualquer motivo aparente, sempre tendo o jovem negro como algum criminoso em potencial. O racismo manifesto mostrado claramente na interação entre Maurício e a mãe de sua amiga Suzana (Giulia Gayoso). O espanto da mãe dela ao se deparar com um jovem negro estudante de medicina dentro de sua casa. O tratamento dispensado ao jovem pela empregada uniformizada demonstra o racismo subliminar muitas vezes internalizado entre negros no Brasil. Tudo isso sendo dissecado magistralmente mostrando o cadaver brasileiro.

M8 é o termo designado para classificar aquelas pessoas que não foram identificadas pelo Estado após suas mortes. Seus corpos negros são enterrados numa vala comum no cemitério público. Antes de serem enterrados estes corpos são usados para estudos de anatomia. Na relação de Maurício com estes corpos negros sendo dissecados está a chave de toda sua aflição. Tormento que ele não consegue verbalizar com sua mãe. Uma enfermeira e mãe solteira que fez todo tipo de sacrifício para ver o filho numa instituição de ensino superior. Ele começa até mesmo questionar sua própria negritude e sua capacidade intelectual para estar na Universidade.

Enquanto os outros estudantes e até mesmo o professor agem naturalmente com o número de corpos negros sendo estudados, Maurício não consegue deixar de ver nestes corpos sua própria negritude. A cena do ritual do Candomblé onde ele tenta buscar respostas para sua angústia é de um lirismo ímpar que certamente seria banalizada nas mãos de um outro diretor menos competente. A aflição do jovem estudante somente desaparecerá quando ele finalmente cumprir seu papel em realizar o enterro de um dos corpos sendo estudados com todos os rituais sagrados. Um dado assustador apresentado pelo diretor e que certamente é de desconhecimento de muita gente é a morte de um jovem negro a cada 23 minutos no Brasil. Um verdadeiro genocidio em curso.

PS: – Neste filme o cineasta presta uma singela homenagem a vereadora Marielle Franco assassinada brutalmente por milicianos no Rio de Janeiro em 2018.

M8 – Quando A Morte Salva A Vida (2019)

Direção – Jeferson De

Duração 88 minutos

Streaming – Netflix