ESTANTE LITERÁRIA – JUSTIÇA AINDA QUE TARDIA

Race Against Time

Na década dos anos de 1980 o jornalista Jerry Mitchell resolveu reinvestigar casos famosos de assasinatos de cidadãos afroamericanos motivados racialmente tanto no estado do Mississippi bem como no estado do Alabama, especialmente durante o Epicentro na luta pelos Direitos Civis nos Estados Unidos.

Buscando novas provas, farejando velhas pistas e publicando artigos após artigos após artigos e por causa do seu agudo faro como jornalista, ele conseguiu obter em muitos casos declarações incriminadoras de suspeitos com posturas defensivas juntamente com  observações danosas de algumas testemunhas não muito amigáveis dos casos mais relevantes.

“Race Against Time – A Reporter Reopens The Unsolved Murder Cases of the Civil Rights Era” é o resultado do seu incansável trabalho como jornalista. É também um explendido e duro relato contado a todo vapor que tem como foco 4 casos emblemáticos mostrando o racismo nos Estados Unidos e a violência direcionada a comunidade afroamericana que buscava seus direitos garantidos pela Constituição do país.

O primeiro caso é o assassinato em Junho de 1963 do ativista Medgar Evers que fazia parte da filial da Organização para o Avanço das Pessoas de Cor(NAACP na sigla em inglês). Uma das organizações mais antigas na luta pela cidadania plena nos EUA. O senhor Evers desafia abertamente a dura opressão sofrida pelos afroamericanos por causa das leis estaduais segregacionistas conhecidas como Jim Crow Laws (Leis Jim Crow em inglês). Esta era uma missão, diga-se de passagem que tomava praticamente toda sua energia no Mississippi, o estado mais segregacionista da União.

Medgar Evers

Medgar Evers protestanto contra as leis segregacionistas Jim Crow.

Ao tentar entrar em sua casa carregando uma caixa com camisetas com os dizeres “Jim Crow Must Go”( Jim Crow deve acabar – trad. livre), Medgar Evers foi alvejado pelas costas no momento em que sua esposa e seus filhos se preparavam para recebê-lo de braços abertos na porta da sua casa. Autoridades estaduais julgaram o supremacista convicto Byron De La Beckwith, o autor do assassinato, duas vezes sem sucesso. Três décadas depois por causa das revelações jornalísticas do senhor Michell de que a “Comissão Soberana” do estado do Mississippi tinha ajudado na defesa do senhor De La Beckwith, ele foi julgado novamente e condenado; morrendo consequentemente num hospital em 2001.

O segundo caso no livro foi o horripilante e cruel assassinato das 4 meninas negras dentro da igreja Batista da rua 16 na cidade de Birmingham no estado do Alabama em Setembro de 1963 somente três meses apos o assassinato de Medgar Evers.(Esta triste história e contada magistralmente pelo direto Spike Lee no documentário 4 Pequenas Crianças de 1997)

4 Little Girls

Destroços da igreja Batista da rua 16 onde 4 meninas morreram.

A bomba dentro da igreja foi colocada por membros da organização terrorista Ku Klux Klan(KKK). Durante anos o caso ficou sem solução porque O FBI se recusava a compartilhar informações com autoridades local por que esta estava macomunada com a organização terrorista. Somente em 1977, mais de uma década depois um dos assassinos, Robert Chambliss, foi condenado pelo assassinato. 24 anos depois em 2001 um outro membro da KKK, Thomas Blanton, Jr., também foi condenado por ter participado na atrocidade. No ano seguinte foi a vez de Bobby Frank Cherry. Frank Cherry alegou na epóca que estava em casa vendo luta livre. Nas investigações do senhor Mitchell, ele descobriu que na época as lutas livres não eram ainda transmitidas pela televisão.

O terceiro caso e sem dúvida alguma um dos mais emblemáticos na época foi o assassinato dos très jovens ativistas Andrew Goodman, James Chaney e Michael Schwerner em Junho de 1964 no estado do Mississippi. (Esta  história e recontada no excelente filme do diretor Alan Parker, Mississippi em Chamas de 1988.)

Os três jovens foram detidos pela polícia local com acusações falsas de que eles eram comunistas pertubando a ordem e paz na cidade. Eles foram entregues para uma gangue da KKK que sem muito pestanejar assassinou os três a sangue frio atirando-os numa represa.

Civil Rights Workers murdered

Por causa da comoção nacional que o caso gerou, o então presidente Lyndon B. Johnson mobilizou a polícia militar e o FBI para resolver este horrendo crime. Os corpos decompostos dos jovens foram resgatados da represa 44 dias depois. Ninguém foi procesado pelos homicidios dentro das leis estadual ate 2005 quando um juri finalmente condenou Edgar Ray Killen pelo crime. Porém, depois de sua condenação, o senhor Killen convenceu um juiz local a dar-lhe liberdade enquanto apelava sua condenação. Citando entre outras desculpas sua idade avançada e enfermidade. Avisado por testemunhas que viram o senhor Killen dirigindo sem qualquer problema e até mesmo colocando gasolina no seu próprio veículo, o jornalista publicou um longo artigo e com o isso o juiz foi obrigado a mandar o senhor Killen para a cadeia.

o último caso no livro fica por conta do assassinato do ativista Vernon Dahmer que também fazia parte da organização NAACP e lutava para remover cláusulas que tornavam dificeis para os afroamericanos votarem na cidade de Hattiesburg no estado do Mississippi. Em janeiro de 1966 um grupo de homens da KKK atirou bombas dentro da sua casa. Ele acabou morrendo por causa dos ferimentos. Quatro suspeitos foram presos e condenados pelo incêndio criminoso e pela morte do ativista.

vernon dahmer

Vernon Dahmer ativista pelos Direitos Civis.

Em 1998 promotores acusaram o senhor Deavours Nix como cúmplice na morte do senhor Dahmer. Aparecendo na Corte sentado numa cadeira de rodas e ajudado por um tubo de oxigênio, o senhor Nix acabou convencendo o juiz a não cobrar fiança. Entretanto, quando o senhor Nix deixou escapar num conversar com Jerry Mitchell que ele estava planejando jogar golf, o jornalista arranjou com um fotógrafo para tirar fotos do velhinho. Quando as fotos foram publicadas no jornal local, o juiz ordenou que o senhor Nix fosse preso imediatamente.

“Race Against Time” é um relato sem pestanejar das atrocidades cometidas contra a comunidade afroamericana que buscava a igualdade de direitos garantidos pelas emendas 14a e 15a da Constituição dos EUA. Igualdade esta que muitos afroamericanos seguem buscando até os dias atuais./NYT

Race Against Time – A Reporter Reopens the Unsolved Murder Cases of the Civil Rights Era

autor – Jerry Mitchell

Editora – Simon Schuster

Páginas, 421 – US$28.00

 

One comment

  1. pmgcadettes@uol.com.br · 7 Days Ago

     ðŸ¤ðŸ‘ De: “Lado B. NYC” <comment-reply@wordpress.com>Enviada: 2020/02/09 19:59:14Para: pmgcadettes@uol.com.brAssunto: [New post] ESTANTE LITERÁRIA – JUSTIÇA AINDA QUE TARDIA #message_content > a:hover { color: red; } #message_content > a { #message_content > text-decoration: none; color: #0088cc; } a.primaryactionlink:link, a.primaryactionlink:visited { background-color: #2585B2; color: #fff; } #message_content > a.primaryactionlink:hover, a.primaryactionlink:active { background-color: #11729E !important; color: #fff !important; } #message_content > /* @media only screen and (max-device-width: 480px) { #message_content > .post { min-width: 700px !important; } } */ WordPress.com

    ecadette posted: ”

    Na década dos anos de 1980 o jornalista Jerry Mitchell resolveu reinvestigar casos famosos de assasinatos de cidadãos afroamericanos motivados racialmente tanto no estado do Mississippi bem como no estado do Alabama, especialmente durante o Epicentro na”

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