OLAUDAH EQUIANO -DESCREVENDO A VIAGEM TRANSATLÂNTICA A BORDO DE UM NAVIO NEGREIRO

Tumbeiro

Fotografia de um navio negreiro inglês do século XVIII

Finalmente quando o navio onde estávamos conseguiu colocar toda sua a carga a bordo, e estava pronto para partir, era possível escutar ruidos estranhos. Fomos todos colocados no porão, por causa disso não poderiámos ver como manejavam a embarcação.

O meu desapontamenteo era menor do que minha tristeza. O fedor que se apossou enquanto ainda estávamos na costa era tão intolerável e repugnante que era perigoso estar no porão por muito tempo. A alguns de nós foi permitido subir até o convés para respirar um pouco de ar puro. Agora toda a “carga” do navio estava confinada junta. O ar tornou-se absolutamente pestilento. Muitas vezes quase sufocávamos por falata de ar fresco.

A proximidade uns dos outros, o calor do clima adicionado ao montante dos acorrentados dentro do navio; o qual estava tão cheio que  cada um de nós tinha pouco espaço para movimentação, praticamente nos sufocava. Isto produziu copiosa perspiração, tanto que o ar logo tornou-se insuportável para a respiração.

Uma variedade repugnante de cheiros acabou  trazendo doenças ao acorrentados. Muitos morreram vítimas da improvidente avarice, como eu bem me recordo. Esta horripilante situação foi agravada mais ainda pela irritação na pele pelas correntes, agora tornando-se insuportável. A isso tudo juntou-se as sujeiras da  tina de àgua na qual as crianças geralmente caiam e eram quase sufocadas.

Os gritos esganiçados das mlheres e os gemidos dos moribundos tornavam toda a cena de horror quase que inconcebível. Felizmente para mim tornei-me tão famélico que acharam melhor colocarem-me repetidamente no convés. Por causa da minha juventude não fui colocado nos grilhões.

Nesta situação esperava a cada hora compartilhar o destino dos meus companheiros que eram levados para o convés a ponto de morrerem. O que comecei a esperar pudesse logo acontecer e colocar um fim a minha miséria.

Frequentemente pensei que muitos dos habitantes das profundezas estavam mais felizes do que eu. Tinha inveja da liberdade que desfrutavam e frequentemente desejava trocar de lugar nas minhas condições pelas deles.

Toda a circunstância que me encontrava servia apenas para render meu estado mais doloroso, enaltecendo com isto minhas apreensões e minha opinião sobre as crueldades das pessoas brancas.

Um dia os marinheiros pegaram uma grande porção de peixes e depois de matarem e satisfazerem suas fomes com o número que acharam adequado para tal, para nossa grande surpresa que estávamos no convés, ao invés de dar-nos alguns peixes para comermos, como esperávamos, eles simplesmente jogaram o resto de volta ao mar, apesar de implorarmos e rogarmos da melhor maneira possível.

Alguns dos meus patrícios pressionados pela fome aproveitaram a oportunidade quando  perceberam que ninguem estava olhando e tentaram furtar alguns peixes, mas foram descobertos. Por causa desta tentativa de saciar a fome foram severamente chicoteados.

Um dia quando o mar estava calmo com um vento moderado, dois dos meus cansados patrícios que estavam acorrentados juntos(eu estava perto deles nesta época), preferindo a morte a este tipo de miséria, de alguma maneira conseguiram passar pelas redes e se jogaram ao mar. Imediatamente outro patrício em situação também degradante por causa de sua doença sem correntes  seguiu o mesmo caminho. Acredito que muitos mais iriam fazer o mesmo se nao tivessem sido impedidos pela tripulaçaão do navio.
A tripulação ficou alarmada instantaneamente. Aqueles de nós que ainda éramos mais ativos, no primeiro momento fomos colocados de volta ao fétido porão. Houve uma grande comoção e muita confusão entre a tripulação e os patrícios, como eu nunca tinha visto antes. Botes foram lançados para tentar resgatar os que tinha pulado no mar. Dois dos que se atiram morreram afogados, mas pegaram o outro e o chicotearam sem piedade por ter preferido a morte a escravidão.

Assim continuamos a sofrer mais dificuldades. Dificuldades a qual é inseparável deste comércio maldito. 

Durante esta viagem vi pela primeira vez peixes “voadores”. Eles costumavam sobrevoar sobre o navio e muitos caiam no convés. Vi também pela primeira vez o quadrante. Frequentemente com muita surpresa via os marinheiros fazerem observações com o instrumento não conseguia pensar o que significava. Finalmente alguns deles interessaram pela minha surpresa e um marinheiro querendo aumentá-la, bem como gratificar minha curiosidade deixou-me olhar através dele.

isto certamente aguçou ainda minha curiosidade. Agora estava mais persuadido do que nunca  que estava num outro mundo. Tudo sobre este novo mundo era mágico. Finalmente avistamos a ilha de Barbados. Com esta vista os brancos no convés dentro do navio deram um grande grito sinalizando suas alegrias sem importarem-se com suas cargas humanas abaixo.

Oulaudah Equiano – A interessante narrativa dea vida de Olaudah Equiano, ou Gustavus Vassa, o africano, escrito por ele mesmo (Londres, 1790), 51-54.

 

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