ESTANTE LITERÁRIA – O HOLOCAUSTO JUDEU E AS MÃOS SUJAS DA AMÉRICA

Hitler American Model

O mito de grande libertador dos judeus europeus liderando os países aliados durante a II Grande Guerra Mundial (1941-1945) há décadas vem sendo contestado por historiadores sérios dentro dos Estados Unidos.

Os cidadãos afro-americanos em particular sempre viram este ufanismo norte-americano com desdém. Para não dizer uma pura hipocrisia. Durante as campanhas na Europa os soldados afro-americanos lutaram em regimentos segregados liderados por oficiais brancos duvidosos de suas capacidades. Quando voltavam para seu país natal a realidade racista batia com toda sua força em seus rostos.

“Hitler’s American Model: The United States and the Making of Nazi Race Law” escrito por James Q. Whitman, renomado professor de Direito da Universidade de Yale, tem como tese a relação entre as leis do nazismo e a leis racistas nos Estados Unidos desenvolvidas no final do século XIX e início do século XX.

O livro mostra claramente como  as idéias de Adolf Hitler não surgiram ad hoc, mas foram forjadas na história da América. País bastante admirado pelos nazistas. Hitler admirava a maneira como a América durante sua formação praticamente decimou os índios nativos e manteve subjulgado os negros africanos escravizados, e subsequentemente os afro-americanos.

“Mein Kampf” escrito em parte quando Hitler ainda estava preso não poupa elogios a América como o país que alcançou grande sucesso no reconhecimento da concepção racial de cidadania “excluindo certas raças”.

Segundo Hitler, os campos de Concentração não foram inventados na Alemanha, eles foram desenvolvidos primeiramente pelos inglêses como uma forma de subjulgar outras nações não brancas ao redor do planeta. De acordo com os planfetários nazistas enquanto  os inglêses operavam na África do Sul, os soviéticos com Stalin massacravam as populações nos países satélites, e os norte-americanos linchavam os negros.

O racismo anti-semita disseminado pelos nazistas tem sua origem na teoria racial do francês Arthur De Gobineau e nos intelectuais anti-semita que normalizaram sua linguagem racista especificamente a partir do caso envolvendo o tenente francês e judeu Alfred Dreyfus acusado de traição.

Adolf Hitler

Adolf Hitler

Os nazistas não estavam incorretos ao citarem precedentes no seu tratamento aos judeus. A América, segundo eles, tinha dentro de sua constituiçao autorização para a escravidão dos afro-americanos. Thomas Jefferson, um dos pais fundadores e escravocrata, dizia abertamente a necessidade de extirpar e elminar os índios nativos e manter o negro subjulgado por causa de sua inferioridade intelectual.

O exemplo dos Estados Unidos em manter um ar de inocência em relação as mortes em massa dos judeus na Europa  mostraram a Hitler que este era um exemplo a ser literalmente seguido. Ao estudar as leis raciais e segregacionistas nos EUA nos anos 30, o advogado alemão, Henrick Krieger, chegou a conclusão de que as leis no país eram opaca, com duplo sentido, escondendo sua verdadeira intenção racista.

A parte mais importante deste explêndido livro e certamente a mais controversa mostra a similaridades em relação as tecnologias do exterminio dos “indesejaveis” tanto na Alemanha como nos Estados Unidos.

Em 1924 a primeira execução a gás foi realizada no estado de Nevada. Alemães e norte-americanos trocaram informações a respeito da melhor maneira de usar o agente de fumegação zyklon-B altamente letal.

O programa de esterlização na California usado amplamente contra a população mexicana serviu de inspiração para a lei nazista de 1934.

Nada passava desapercebido por Adolf Hitler que tinha uma enorme admiração pela maneira como a América com suas leis e seu racismo mantinha um total controle sobre sua população não branca.

A lei de imigração promulgada em 1924 nos EUA restringia a entrada de imigrantes de certos países, principalmente os asiáticos. Isto certamente mostrava aos nazistas que a América estava no caminho certo apesar de sua pseudo retórica a respeito da igualdade de direitos.

Esta lei teve um enorme impacto na entrada de judeus no país durante o holocausto. Esta mesma lei impediu a holandesa Anne Frank e sua família de entrarem nos EUA.

Em 1938 o então presidente Franklin Roosevelt convocou uma reunião internacional para lidar com o tema dos refugiados europeus. Nesta reunião nada foi resolvido, levando o representante alemão a dizer: “É impressionante que outros países critiquem o tratamento alemão dado aos judeus e negam admití-los.”

Milhares de soldados norte-americanos morreram na guerra. Entretanto, o anti-semitismo era pervasivo nos EUA levando inclusive o condecorado general George Patton a dizer que os judeus faziam parte de uma raça inferior aos animais.

Este importante livro desmistifica a idéia sobre o altruísmo norte-americano na sua luta durante a II Grande Guerra Mundial. Desmistifica também a suposta inocência norte-american em não saber o que realmente se passava com os judeus na Europa.

A América sabia exatamente tudo o que estava ocorrendo. Os nazistas estavam usando práticas que os próprios norte-americanos utilizaram dentro do seu próprio país.

Hitler’s American Model: The United States and the Making of Nazi Race Law

Editora – Princeton University Press

Páginas – 224

US$24.95