HISTÓRIA – TREZE DE MAIO 130 ANOS DEPOIS.

130 anos da abolição

De acordo com os historiadores brasileiros que escreveram os livros didádicos de história para os alunos tanto da escola pública, bem como das escolas particulares nas longínquas décadas de 1960 e 1970, a instituição da escravidão, a semente que germinou todas as relações no Brasil durante um período de pelo menos 350 anos foi tão inexpressiva que não  merecia mais do que uma pequena menção em algumas poucas páginas.

Naturalmente nestas poucas páginas os alunos não aprenderam o que realmente foi a escravidão no Brasil. As torturas, as separações de famílias, os estupros, as longas horas de trabalho forçado, e a vida nas senzalas. Tão pouco aprenderam o número de africanos vivos que chegavam anualmente nos portos brasileiros, suas origens, suas tribos, suas línguas, suas religiões, o número de tumbeiros que atravessaram o oceano Atlântico, e as condições destas viagens. Por último, o que foi o imenso Mercado do Valongo no Rio de Janeiro, a então capital do Império português.

Em outras palavras, houve por parte destes historiadores com o total aval do governo brasileiro uma determinação em apagar da memória do país como o seu arcabouço foi erguido. Com o suor, e em muitos casos o sangue dos escravos derramados nas grandes plantações, nas minas de ouro, e no desenvolvimento das grande cidades brasileiras.

Para os historiadores brasileiros informações de como era a vida diária dos escravos, como as mães cuidavam de seus filhos (muitas vezes resultado de estupros sofridos pelo escravocrata), como era a vida social nas senzalas quando os escravos não estavam trabalhando ou sendo brutalmente punidos não tinha importância alguma no aprendizado dos alunos. Não era de interesse do governo em realmente saber como foi o longo e penoso relacionamento entre a África e o Brasil.

Ate que seu cabelo não e tão ruim

Estética de beleza branca ainda e predominante no Brasil do século XXI.

Os historiadores propositalmente omitiram também as insurreições, as lutas, e a criação de centenas de quilombos usados como uma forma de resistência. A idéia pactuada entre o governo federal do pós-abolição e os  historiadores foi que a escravidão não tinha sido assim tao brutal como testemunharam vários viajantes que na época passaram pelo Brasil relatando como os escravos eram tratados. Para esta turma os negros aceitaram passivamente durante séculos os maus tratos e seus papéis de suberviência e inferioridade calados.

Como é de (des)conhecimento geral a ênfase nos livros didáticos ficou para a história dos milhões de europreus brancos pobres que juntamente como os japoneses chegaram ao Brasil para substituirem a mão de obra escrava no crepúsculo do século XIX. Nesta nova versão histórica não havia lugar para relatar as brutalidades e os horrores da escravidão.

Com o início da nova República inaugurado em 15 de Novembro de 1889, a preocupação do governo federal não era sómente apagar este passado horripilante, mas avançar a causa do empranquecimento da população. Com isto o imenso país tropical poderia mudar sua imagem ao redor do mundo de um país com a vasta maioria da população negra e ex escrava para um com uma população livre mas com a tez mais clara.

A partir do início do século XX  uma nova historiografia passou a ser ditada pelos imigrantes brancos. Uma história onde a instituição da escravidao juntamente com a negritude e o seu legado não tinha mais espaço. Uma história onde as mazelas do país foi sendo pouco a pouco afixada nas costas dos ex escravos, mas não na instituição da escravidão. A chegada dos imigrantes europeus e dos japonese não mudou em nada este percepção com relação aos ex escravos. Os esteriótipos e preconceitos continuaram fortes.

marielle franco

Marielle Franco morta em 14 de Março de 2018

Se por um lado esta nova versão da história brasileira ajudou a criar um mito, e este mito foi essencial para manter os privilégios brancos em todas as suas formas; fossem  financeira, intelectual, cultural e até mesmo estética, o oposto ocorreu com a massa de ex escravos. Sem estes capitais a seu dispor, a massa de milhões de ex escravos ficou a mercer de sua própria sorte.

Neste 130 anos pós-abolição, o Brasil fez tudo que pode para esconder seu passado histórico. Não houve por parte dos representantes do setor público ou do setor privado nenhuma preocupação em tornar os ex escravos em cidadãos. Assim como o ciclo da riqueza foi sendo passado de geração a geração pelos ex senhores de engenhos, o ciclo da pobreza foi sendo passado de geração a geração pelos descendentes dos ex escravos.

As estatísticas governamental e de outros orgãos internacionais são claras. Os números não mentem. O legado da escravidão brasileira continua afetando brutalmente a vasta maioria dos negros no país. Seja em moradias precárias, falta de segurança, no desemprego, em cidadania, ou mortes. Perpetuando com isto seu status de cidadão de segunda classe.

Desde o dia 14 de Maio de 1888 o Estado brasileiro vem tratando a população negra como se esta ainda pertencesse a senzala. A desonestidade intelectual dos formadores de opinião continua sendo um grande impedimento para debater a dívida que o Brasil tem com os descendentes dos ex escravos.